O conflito é parte natural de nossas vidas e apenas isto já seria suficiente para considerá-lo como importante tema de estudo. De fato, todas as teorias interacionistas em filosofia, psicologia e educação estão alicerçadas no pressuposto de que nos constituímos e somos constituídos a partir da relação direta ou mediada com o outro, seja ela de natureza subjetiva ou objetiva. Nessa relação, nos deparamos com as diferenças e semelhanças que nos obrigam a comparar, descobrir, ressignificar, compreender, agir, buscar alternativas e refletir sobre nós mesmos e sobre os demais. O conflito torna-se, portanto, a matéria prima para nossa constituição psíquica, cognitiva, afetiva, ideológica e social.

A educação baseada em propostas de resolução de conflitos está cada vez mais difundida em todo o mundo, dentro de perspectivas que buscam melhorar o convívio social e criar bases para a construção de sociedades e culturas mais democráticas e sensíveis à ética nas relações humanas.

Novos paradigmas em resolução de conflitos que, baseando-se na comunicação e em práticas discursivas e simbólicas, promovem diálogos transformativos, nos quais não há sempre ganhadores e perdedores e sim a construção do interesse comum, em que todos os envolvidos ganhem conjuntamente, com uma coparticipação responsável.

De acordo com os autores do livro Resolução de Conflitos e Aprendizagem Emocional, Genoveva Sastre e Montserrat Moreno, para se obter formas de convivência mais satisfatórias é necessário formar os alunos, desenvolver sua personalidade, fazê-los conscientes de suas ações e das consequências que acarretam, conseguir que aprendam a conhecer melhor a si mesmos e às demais pessoas, fomentar a cooperação, a autoconfiança e a confiança em suas companheiras e seus companheiros, com base no conhecimento da forma de agir de cada pessoa, e a beneficiar-se das consequências que estes conhecimentos lhes proporcionam.

O trabalho com assembleias escolares que está sendo desenvolvido em nossa escola permite a construção psicológica, social, cultural e moral do próprio sujeito, em um movimento  em que o coletivo transforma e constitui cada um de nós, que, por nossa vez, transformamos e ajudamos na constituição dos espaços e relações coletivas.

Mas o que são assembleias escolares? As assembleias são o momento institucional da palavra e do diálogo. Segundo Josep Maria Puig, é um momento organizado para que alunos e alunas, professores e professoras possam falar das questões que lhes pareçam pertinentes para melhorar o trabalho e a convivência escolar. Além de ser um espaço para a elaboração e reelaboração constante das regras que regulam a convivência escolar, as assembleias propiciam momentos para o diálogo, a negociação e o encaminhamento de soluções dos conflitos cotidianos. Dessa maneira, contribuem para a construção de capacidades psicomorais essenciais ao processo de construção de valores e atitudes éticas. Em uma outra perspectiva, com esse tipo de trabalho, professores também têm a oportunidade de conhecer melhor seus alunos e suas alunas em facetas que não são possíveis no dia a dia da sala de aula. Temas como disciplina e indisciplina deixam de ser de responsabilidade somente da autoridade docente e passam a ser compartilhados por todo o grupo-classe, responsável pela elaboração das regras e pela cobrança de seu respeito. Enfim, o espaço das assembleias propicia grandes mudanças na forma como as relações interpessoais são estabelecidas dentro da escola e permite verdadeiramente a construção de um ambiente escolar dialógico e democrático.

Pelo diálogo, mediado pelo grupo, na assembleia, as alternativas de solução ou de enfrentamento de um problema são compartilhadas e as diferenças vão sendo explicitadas e trabalhadas pelo grupo regularmente, durante um longo processo de tempo. Entendemos que pessoas com tais habilidades cognitivas, afetivas e sociais terão maior possibilidade de agir eticamente no mundo, ao perceberem com naturalidade as diferenças em nossas formas de agir e de pensar.

A escola e a sala de aula são espaços privilegiados para que um trabalho de formação como esse se opere. Afinal, constituem-se em espaço público, onde as pessoas  convivem durante boa parte de seu dia com valores, crenças, desejos, histórias e culturas diferentes. Ao invés de tentar homogeneizá-las e eliminar as diferenças e os conflitos, buscamos promover o desenvolvimento das capacidades dialógicas e os valores de não-violência, respeito, justiça, democracia, solidariedade e muitos outros. Mais importante ainda, não de forma teórica e sim na prática cotidiana a partir dos conflitos diários.

 

Baseado no livro da Editora Moderna Assembleia escolar: um caminho para a resolução de conflitos, de autoria de Ulisses F. Araújo.

Helena Sellani

 

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