Numa época difícil como a nossa, onde a violência e o desrespeito explodem em todas as esferas sociais, a questão ética torna-se emergencial. Yves de La Taille, em “A construção da personalidade moral” afirma que “hoje, em nome de uma suposta liberalidade e apreço pela autonomia das crianças e dos jovens, alguns adultos saem de cena, deixando a seus filhos e/ou alunos a impossível tarefa de, praticamente do zero, construir uma ética.”

Vivemos, então, um momento de relativização de tudo, de negação de valores, de destruição de raízes e sem uma educação que vise a formação de valores humanos. Situação que trouxe graves riscos à formação de crianças.

É, portanto, chegada a hora dos educadores entrarem em cena e pensarem na educação moral das crianças. Uma educação que tenha por objetivo a construção da moral autônoma – como indica Piaget – somada ao desenvolvimento da autoestima e da aquisição de valores humanos, e que esteja pautada nas relações de respeito mútuo, cooperação e diálogo. A questão da ética ou da moralidade é importante e urgente na vida cotidiana.

A educação moral é necessária ao desenvolvimento e ao amadurecimento infantil. Daí a importância de trazê-la para o debate em sala de aula, pois para muitas crianças, a escola é a primeira oportunidade de conviver com pessoas diferentes, de expressar suas opiniões e de ser ouvida.

Piaget, importante epistemólogo suíço, encontrou em seus estudos duas morais: a moral da heteronomia e a moral da autonomia.

Na heteronomia, as regras ainda não estão internalizadas. São obedecidas pelo medo ou pelo amor, pois a autoridade é confundida com a lei. As ações são julgadas pelas consequências finais, sem considerar as intenções. Daí resulta que heterônomo seja o sujeito que é governado pelos outros, que age ou obedece movido pela presença do outro que castiga ou recompensa.

As crianças heterônomas afirmam que não se deve mentir porque Deus castiga ou porque o nariz cresce, diferentemente da criança que pauta seu pensamento na reciprocidade, ou seja, que afirma que não devemos mentir para que o outro não perca a confiança em nós.

Na autonomia, as regras são internalizadas e concebidas como produtos de acordos mútuos; não é necessária a presença de autoridade para que os deveres e regras se cumpram. O próprio sujeito se autogoverna e respeita regras, movido pelo sentimento da necessidade e pela capacidade de colocar-se no lugar do outro; é capaz de tomar decisões e responsabilizar-se por elas agindo com liberdade e razão.

É tarefa da educação substituir a heteronomia, presente nas crianças, pela autonomia desejada, porém nem sempre conquistada, dos adultos. Para que as crianças evoluam da heteronomia para a autonomia, Piaget aconselha os educadores a criar ambientes de cooperação, nos quais a criança descentralize seu pensamento através do diálogo e dos acordos.

O confronto de pontos de vista provoca o pensamento da criança, levando-o a níveis mais elevados na construção da autonomia. O juízo moral é, assim, um processo de construção. Segundo a autora Joseph Marie Puig, “a educação moral é uma tarefa destinada a dar forma moral à própria identidade, mediante um trabalho de reflexão e ação a partir das circunstâncias que cada sujeito vai encontrando no dia-a-dia. Trata-se, porém, de um processo de construção que ninguém realiza de modo isolado; conta sempre com a ajuda dos demais e de múltiplos elementos culturais valiosos, que contribuem ativamente para conformar a personalidade moral de cada sujeito.”

Esta construção da moralidade é um processo complexo que envolve desde a aquisição de convenções sociais até o nascimento da moral autônoma. Inteligência, maturidade, afetividade e qualidade das interações sociais estão em jogo. O desenvolvimento do juízo moral não garante sozinho que o sujeito aja moralmente.

A educação moral é, portanto, um processo de adaptação social e pessoal. É um processo de reconhecimento de pontos de vista, aspirações e posições que são pessoal e socialmente valorizadas.

A criança evolui da heteronomia para a autonomia quando tem a oportunidade de cooperar. Através da cooperação, entendida como operar junto, é que a criança torna-se capaz de descentrar seu pensamento e substituir as relações pautadas pela coerção e respeito unilateral pelas relações pautadas pelo respeito mútuo e igualdade. Através do contato com questões morais e através da reflexão, da prática do diálogo, do confronto de diferentes pontos de vista e das regras criadas para a participação no grupo, a criança dá passos largos a caminho da autonomia.

Quanto mais oportunidades a criança tiver de refletir sobre o mundo, as pessoas e as ações, maior serão as oportunidades dela constituir-se como um ser moral.

 

Vivian Munhoz
Coordenadora Pedagógica

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