Quem anda distraído em meio à cidade do Saber pode passar despercebido por uma tradicional e respeitada doceria que fica em uma das esquinas da Alameda Razão. À primeira vista, a loja de fachada de cores sóbrias não inspira muito o paladar. É por isso que, apesar de muito antiga, a loja vive da fidelidade de alguns poucos clientes.  Digamos que é muito raro um curioso entrar na loja para ver o que há lá para se provar sem estar acompanhado de um cliente assíduo. Isso, porque nos dias de hoje as pessoas andam com pressa, não se dão conta do que há à sua volta e, por muitas vezes, precisam de ajuda para poder localizar a loja que apresento com essas palavras.

Na porta, há uma inscrição antiga, pelo tempo quase apagada, que ainda pode ser lida pelos mais atentos: Conhece-te a ti mesmo. Muitos cruzam a inscrição sem notá-la, mas os que param para apreciá-la podem admirar em suas letras douradas um gosto no céu da boca de dúvida, de incerteza… de perdição. E logo a porta já costuma afugentar os de paladar acostumado com as artes culinárias corriqueiras, com os pequenos doces industrializados e de mesmo formato que adoçam o paladar, mas não a alma. Para alguns o gosto no céu da boca parece estranho demais por ser feito de ingredientes um pouco indigestos, como a pergunta, o desconhecido, a angústia. Muitos não suportam o gosto que essas palavras trazem à sua língua e abandonam a porta da loja rapidamente. Não é difícil encontrar essas pessoas tecendo ignorantes comentários sobre a loja, afugentando os paladares jovens e aventureiros.

Mas a loja ainda tem seus clientes mais antigos, aqueles que já entram com intimidade em seu interior e se deliciam com suas especialidades. E estes, vez ou outra, trazem pela mão um amigo-amante desses doces da Alameda Razão. Ao entrar pela primeira vez, a pessoa será guiada a observar as prateleiras, os potes coloridos e todas as pequenas embalagens que guardam segredos e delícias. No geral, à primeira visita não se prova desses doces… mas só o aroma que a loja exala preenche todos os poros dos visitantes e  isso faz com que, como um hábito, a pessoa nova retorne àquela porta.

Em uma segunda visita, o novato poderá observar que a loja está mais colorida e seus doces parecem mais apetitosos que da primeira vez em que seus olhos tocaram o desejo de tê-los na boca: é que a loja precisa, aos poucos, educar o olhar do visitante, para que ele possa ver com clareza os quitutes ali preparados antes de prová-los. E, enfim, chega a hora tão esperada…

Quase sempre é o guia, um frequentador que possa introduzir o pupilo ao sabor, que escolhe o primeiro doce. Alguns dizem que há regras a serem seguidas neste momento, outros dizem que o bom orientador será aquele que poderá sentir o desejo do novo visitante para poder escolher o doce que melhor se acomodará entre o divino e o inesquecível. A aproximação é lenta, para que todos os detalhes e nuances possam ser saboreados. E neste momento podem acontecer muitas coisas…

O doce escolhido pode ser aceito ou não pelo paladar do mais novo iniciado. Mas a postura diante do sabor determinará sua volta àquele lugar tão especial da Alameda Razão. Para se tornar um frequentador legítimo, precisa-se de persistência, de curiosidade, de liberdade… A loja está repleta de maravilhas, mas só é possível saber qual delas dançará melhor sobre a língua se provarmos dessas dúvidas em forma de confeitos. Não saber a sensação que se deve esperar diante de uma nova experiência pode ser uma situação reveladora. A sensação de provar, de se entregar ao novo e, muitas vezes, de se decepcionar com os sabores que chegam aos nossos sentidos pode ser assustadora ou libertadora. A reação do novato dirá se ele poderá ou não se deliciar nesse ambiente. E muitos aqui desistem de experimentar. O sabor do lado de fora da loja é, sem a menor sombra de dúvida, muito mais seguro.

Ao se tornar um amigo-amante da maravilhosa loja de doces da Alameda Razão passa-se a entrar com cada vez mais entusiasmo, lendo aquela inscrição antiga de que falamos, saboreando-a, em todos os seus prazeres. E, com o tempo, o amigo da loja passa a ser convidado a entrar não mais pela porta principal da Alameda Razão, mas sim pela porta lateral, situada em outra rua. Quando se sente esse convite, abrem-se as portas da Rua Coração e assim, o apreciador dos fantásticos sabores que a doceria proporciona poderá então convidar alguém especial para conhecer esse lugar que agora também é seu.

O nome desta loja? Filosofia…

 

 

Texto publicado por Larissa Gandolfo – Professora de Filosofia da Escola Villare

 

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