Por Vivian Munhoz Rocha

Desde que o mundo é mundo a arte ocupa lugar de importância nas culturas. A arte tem a função de alimentar simbolicamente o ser humano, de proporcionar experiências que transformam a relação do sujeito com o mundo e consigo mesmo.

A perenidade da arte e sua presença nas culturas humanas, em todos os tempos, apontam para o fato de que esta é necessária para a experiência humana. Sua função social é recriar para a experiência de cada pessoa a experiência da humanidade e apresentar a realidade como uma construção que pode ser constantemente transformada.

Arte é uma palavra de difícil e múltipla definição. Contudo, pode-se dizer que como produção humana, é conhecimento, é linguagem e, enquanto linguagem, também é forma de expressão.

Enquanto área do conhecimento humano, é um instrumento de produção e de acesso ao conhecimento e, ao mesmo tempo, é uma forma de aprendizagem ao propor a reflexão sobre a condição humana e sobre sua relação com o mundo, produzindo conhecimento por meio da linguagem poética. A arte é, assim, uma forma peculiar de conhecer e dar sentido à experiência humana.

Enquanto linguagem, a arte tem uma função comunicativa: propõe uma conversa entre o apreciador e obra, isto é, ela comunica enquanto opera na experiência alheia. O apreciador, motivado pela experiência estética, interpreta a obra considerando seus estímulos externos e seus conteúdos internos.

Como as demais linguagens, a arte é expressiva,  composta por uma substância e por uma forma, ou seja, a comunicação implica em ter o que dizer, uma intencionalidade, e como dizer, por meio da plasticidade, da melodia, das palavras.

Entender a arte como conhecimento e linguagem, implica entender a possibilidade de seu ensino e aprendizagem.

A concepção de aprendizagem, mais afinada com a contemporaneidade, aponta que a aprendizagem é fruto de processos complexos de pensamento, nos quais a ação mental do sujeito que aprende é determinante para a aprendizagem. Assim, o sujeito se apropria do conhecimento como uma reconstrução, que somente é possível quando na própria experiência ele é significativo.

A proposta triangular para o ensino da arte, criada pela pesquisadora brasileira Ana Mae Barbosa, compreende o conceito de arte ligado à cognição, sendo a expressão produto dela.

Suas ideias movimentaram o panorama da arte-educação brasileira na década de 80, e se sustentam nos pressupostos defendidos pelo movimento de “Educação pela Arte”, defendido por arte-educadores estrangeiros, a partir da década de 60.

Ana Mae Barbosa estabelece que a aprendizagem em arte pressuponha experiências em três eixos: apreciação, história e fazer artístico, ou seja, as pessoas aprendem arte quando lhes são permitidos: o acesso à produção artística, a informação acerca da arte e a oportunidade de realizar trabalhos de natureza artística.

O fazer artístico pode ser entendido como a produção de trabalhos artísticos, decorrente do desenvolvimento de um percurso de aprendizagem em arte; no qual, técnicas, habilidades, competências e recursos estão em constante aprimoramento e se articulam para dar forma a uma ideia, que se expressa por meio de uma produção artística.

O fazer é alimentado pela apreciação e pela reflexãoem arte. Aapreciação em arte corresponde ao desenvolvimento, da competência de leitura e de fruição, da produção artística. Ler uma obra de arte, da mesma forma que se lê um texto, é atribuir-lhe significado, é interpretá-la, é dialogar com a obra e com o seu produtor.

É o leitor que constrói o significado daquilo que lê, o que não quer dizer que a obra não tenha significadoem si. Istoquer dizer que o significado que uma obra tem para o leitor, não é uma tradução do significado que a obra tem em si, mas uma construção que envolve a obra, os conhecimentos prévios do leitor e os seus objetivos.

É preciso educar o olhar, ampliando a capacidade de experiência e aprendizagem por meio da percepção. O olhar desenvolvido está a serviço da compreensão. No mundo contemporâneo, a visão e a audição são solicitadas no cotidiano a todo o instante, mas de forma superficial. É educando o olhar e os ouvidos, que alguém pode alcançar uma profundidade maior, ao processar os estímulos aos quais está exposto, e tornar-se capaz de aprender a selecionar elementos visuais e sonoros, utilizando-os para comunicar-se de maneira eficiente e criadora.

Cada pessoa interpreta aquilo que lê a partir do que sabe e, portanto, a leitura está condicionada ao universo pessoal e cultural de seu leitor. O olhar não é neutro, é comprometido com as nossas experiências e com o contexto em que o sujeito está inserido. Sendo assim, é importante para a ampliação desta leitura o acesso à informação que possa contextualizar, isto é, situar a obra em um contexto histórico, cultural e social.

A história, como eixo de aprendizagem significativa em arte, corresponde à aquisição de conhecimento a respeito da arte, seus produtos e produtores a partir da interação com fontes informativas e informantes que refletem sobre arte.

Pode-se concluir que: os três eixos de experiência em arte estão articulados entre si e apontam para uma aprendizagem significativa, de modo que o fazer ganha qualidade quando é nutrido pelo conhecimento e pela apreciação.

A apreciação, por sua vez, necessita de conhecimento que forneça as pistas necessárias para a capacidade de ler de forma significativa e, por outro lado, oferece boas referências para a produçãoem arte. Oconhecimento em arte, ou seja, a história, permite a leitura e a produção comprometida com a qualidade.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *